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jueves, 13 de mayo de 2010

Da coluna Entre os Dedos, publicada na SuperBem

Eu sou AT

Andar pelas ruas sempre foi um mistério a ser desvendado. Quando criança, para as aulas de inglês e música, me levava a passear pela Quintino Bocaiúva, cruzar o que hoje é o Parcão e atravessar a 24 de Outubro. Isso eu fazia com esmero, paciência, educação. Era um trajeto curto, desafiador para os meus nove anos. Não aceitar nada de ninguém era o lema que me guiava, naquela Porto Alegre de ruas sem canteiros no meio, por onde passavam Opalas e Fucas: era só olhar para os dois lados, observar, ganhar a calçada oposta.



Deve vir daí, mas não asseguro, o gosto pelo Acompanhamento Terapêutico. Ser alguém no meio da cidade não é tarefa fácil. É um descobrimento, uma exposição. E, muitas vezes, pode representar uma ameaça à nossa segurança.


Disso sabemos bem, e o AT está aí para enfrentar essas e outras dificuldades. Mas nem tantas. Sim, o trabalho de acompanhar inclui necessariamente o de ser acompanhado. E de aceitar (quase) tudo de alguém.


Aparentemente, prestamos um serviço simples. Estar por duas horas ao lado de uma pessoa que precisa de nosso apoio e dedicação pode ser muito agradável. E é. Você deve estar pensando “bem, isso qualquer um faz”. Exato. Qualquer um. Que queira. Que olhe. Que aceite. Que saiba se emprestar a outra pessoa.


É como um corpo que recebe o espírito. E não é. É como um rio que corre ao lado de outro rio. E também não é. As imagens que descrevo aqui ajudam, mas não definem.


Acompanhar terapeuticamente é um caminho a seguir. Nunca haverá O Resultado. Nunca saberemos quando começou.


É de um momento para o outro, distraidamente, que o Acompanhamento Terapêutico se faz presente: um instante de não estar pre-o-cu-pan-do-se, ques-tio-nan-do-se.


De apenas ser. E criar o momento com toda a honestidade.


(Este o primeiro texto de minha coluna mensal na Newsletter SuperBem, da Clínica Verri: www.superbem.com.br .)