lunes, 27 de octubre de 2008

L´amour, c´est tout

Conta-me ela que deixa os cabelos crescerem para que acompanhem o desarrollar dos pensamentos, e os quero-queros em velocidade gritam, no verde da espuma, a espuma que bate na areia sem piedade. Conheci-a há poucos dias, lia Fica comigo esta noite, mostrou que é de uma autora portuguesa, Inês Pedrosa. Sentamos na praia, na toalha colorida, e começou a me dizer do conto Todo o amor, e de como o título lhe havia deixado parada, estremecida, com cheiro de gente. Sei do que me fala, a Pietra, mas prefiro que ela diga, e prossiga, são tantas as variáveis, e estende as pernas, os pés, ali chega uma onda.
-Escurece, diz ela, e compreendo, mesmo iluminadas que estamos pelo sol, é uma tarde quente, até poderíamos entrar na água.
Mas Pietra não quer voltar para casa e sim desmembrar o ouriço morto que tem nas mãos. E então vai, e cada vaga vem, quando nos chega, de longe, vejo pelas feições do rosto, pelo branco da pele, chega o moço, deita ao lado dela e, bem, à vontade, quer ouvi-la tocar o violão. E como se fosse possível, estamos num quarto azul, ela sentada com o violão, tirando os primeiros acordes, e ele, apoiado num travesseiro, apenas ali. Ele tem as costas nuas e jovens e macias, é suave sua presença, e tudo lhe parece familiar. Levanta, pega o cinzeiro, acende um cigarro, volta à posição agora mais próxima de Pietra, que canta algo de oiseaux, os cabelos dela mais curtos do que ultimamente, seu rosto de um rosa tênue, pulsa o sangue nela, que agora comigo sentada na praia baixa a cabeça ao falar, aquele era o meu vestido, o lilás, aquela era a minha casa, e pintamos de azul o quarto, e a janelinha, de branco, eu tocava para ele até amanhecer.
-Escurece, insiste Pietra, - abraça as pernas dobradas, pergunta ao mar: escurece?
Vem outra onda, o céu passa ao alaranjado mais próximo do fim da tarde, mas ainda não, ainda a tarde não finda, ainda somos, eu e Pietra, na praia.
Nessa tarde de lágrimas, desenhamos na areia, meus cabelos tocam minhas mãos, especialmente uma mecha mais longa e mais clara, que deixei, talvez por esquecimento.
-A história não termina, Pietra avisa, enquanto levantamos e espanamos a toalha no vento. E disso eu também sei. Que as histórias são um instante, e depois outro, e nunca, nunca, alguém sabe, de verdade, quem contou. Nesse caso, se ela ou eu.

1 comentario:

Cínthya Verri dijo...

aqui no porto
batem as ondas de calor distorcido que saem do asfalto
aqui no porto aportam grandes navios também
aqui ao porto navegam as orações tuas
oscilam em mim teus ditos
fico mareada de amor.