miércoles, 14 de enero de 2009

Estrangeira

Página 7

"Começamos a cruzar o mar. Sem barco ou pés de pato, sem snork, mas com vontade. Deixamos a praia para trás batendo pés usando uma bóia com cara de sapinho: um sapo-bóia. Há uma ilha à nossa frente. Não que isso signifique qualquer coisa. Queremos ir mar adentro, sentimos a diferença de temperatura, aproximando-nos da rebentação. Falamos do que comemos no café da manhã, da noite anterior, quando estivemos escrevendo um poema a quatro mãos.
Vejo uma superfície marrom, que passa por mim. Vejo, mas não discuto. É marrom, é vulto, tem peso, mas assim na água pouco se enxerga o tamanho da massa esta. Não dá um segundo, e você salta: o que é aquilo? não tenho a menor idéia, e você se assusta, e então intuo que devo me assustar, afinal, será um cação?
É claro que imaginamos uma baleia. Uma baleia e sua rabanada mortal em nossas cabeças, vidas tiradas assim num passeio simples pela costa catarinense. Imagino eu, imagina você, corremos perigo, damos meia volta, nadamos, pegamos jacaré em direção à margem.
Uma baleia, quando vem, é de manso. Só na hora em que ergue o corpo de dentro d'água é que tudo se revolve. Multiplicam-se as espumas, cria ondas desorientadas, e então o mal, aparentemente, aparece.
O mal e seu volume que tomba inúmeras vezes afugenta, adia, evade, transpira.
O mal, esse risco que divide o-que-fazemos de no-que-realmente-isso-vai-dar.
O risco de giz que uma galinha não desobedece, julgando estar presa.
Ah, o mal. Vocábulo curto, três letras apenas.

Corremos pra casa, pro banho, pras toalhas.

Pessoalmente, nunca vi uma baleia."

1 comentario:

Cínthya Verri dijo...

aaaaah
whales
aaaaah
cachalotes dentro de nós
prontos a entornar nosso oceano
emborcar a fala boca afora...
que lindo.